26/04/2007 ..

Reticências...





Gosto de escrever os meus posts no dia em que vão ao ar. Ao vivo, diário e a cores! Mas isso tem certas implicações, como a de fatalmente me enrolar de vez em quando e ter que escrever correndo para não perder o trem!



A opção por escrever diariamente ao invés de deixar posts prontos – como muitos já me aconselharam – tem a ver com a necessidade de expressar as minhas sensações da maneira mais simples e honesta possível. Ou seja, pegar a emoção no momento em que ela passa e tentar expressar da maneira mais clara possível as sensações de quem vive para cozinhar.



Cada coisa que acontece no nosso dia-a-dia lá no restaurante pode transformar-se num post, acho isso fantástico! Outro dia fiquei pensando em como poderia descrever com fidelidade e em tempo real a sensação de se estar dentro da cozinha quando todas as mesas do restaurante estão ocupadas. Queria poder colocá-los dentro da cozinha comigo! E quando eu decido alguma coisa... Reticências!



As sensações são as mais diversas possíveis, tanto pode ser o paraíso, como o inferno, literalmente! Na última aula do T&D me perguntaram se a gente briga muito nessas horas? Brigar? Na hora do trabalho?



Claro que sim! Brigamos muito, igual família italiana! Ou, deixe-me pensar... Pior talvez! Muito pior!



O fundamental nessa história é saber lidar com isso de maneira profissional, compreender a angústia, a pressão do momento. A demanda, a expectativa, a responsabilidade de ter 40 pessoas ansiosas à sua espera. Saber separar o joio do trigo, como diz minha avó! Saber lidar com os excessos, com as dificuldades do momento, inclua-se aí um calor que pode passar dos 50º, pedidos que caem na sua frente como confete em época de Carnaval, problemas a serem digeridos e resolvidos em questão de segundos! Além é claro da cobrança pessoal que corre nas nossas veias e não nos permite falhar!



É uma loucura! Uma exaustiva e deliciosa loucura, que tenho certeza todos vocês saberiam apreciar, entender e amar, se tivessem a chance de estar dentro dela por pelo menos alguns instantes.



Porque estou dizendo isso?



Reticências...



Até!

25/04/2007 ..

Diferentes pontos de vista e de cozimento...




Dada a carga emocional do post de ontem, hoje acordei decidida a não escrever. Pensei em dar uma receita, e pronto! E eu consigo? Lá vou eu de novo...



Não desisti de dar a receita, mas não posso deixar de falar sobre ela, porque estou fascinada pela sua autenticidade. Na última aula do T&D, ensinei uma receita muito simples e absolutamente encantadora. Encontrei-a num livro muito antigo de cozinha italiana que eu adoro. Segue a simples premissa da qualidade e do respeito absoluto ao ingrediente.



Congelar a carne para preparar o carpaccio, e depois descongelar para comer?



Realmente nunca fez muito sentido para mim, tanto que, devo admitir, nunca fui muito fã de carpaccio! Mas fui a Harry´s Bar, em Veneza, mesmo assim, à procura do tão famoso carpaccio. Quem não foi? Agora, sabem de uma coisa? Tomei só um belini e fui andar pelos canais cantarolando. Valeu a pena, mas o carpaccio continuou na minha lista negra.



Até encontrar essa receita: carpaccio de Verona. Trata-se de uma versão mais rústica, mais camponesa e antiga, do velho carpaccio. Muito apreciada pelo povo sábio da região do Vêneto. A carne deve ser de primeira e fresquíssima, e a boa notícia é que não será congelada, apenas marinada e resfriada. No final ganhará a companhia agradável e marcante de pinólis recém tostados, abundantes pitadas do mais puro parmiggiano reggiano que o seu dinheiro possa comprar, gotas translúcidas de limão siciliano e folhinhas de basílico. Quer mais? Ok, você venceu: um fio de azeite de baixa acidez e o pão mais fresco que encontrar!



Carpaccio de Verona
Por Roberta Sudbrack



Ingredientes:

8 pessoas



200g de filé mignon

Brotos ou folhinhas de basílico

Azeite de oliva extra-virgem de baixa acidez

Pimenta do reino moída na hora

Parmiggiano reggiano ralado

20g de pinólis

Flor de sal

Sal

Limão



Modo de preparo:

Limpe o filé e corte em escalopinhos finos. Coloque o escalopinho entre dois sacos plásticos e bata com a ajuda de um batedor de carne plano, até que estejam bem finos. Arrume os escalopinhos em um recipiente raso. Tempere os escalopinhos dos dois lados com sal, azeite e pimenta do reino. Forme camadas com os escalopinhos. Deixe descansar na geladeira por 30 minutos. Na hora de servir doure os pinólis numa frigideira sem gordura. Sirva o carpaccio com pinólis, parmiggiano ralado, flor de sal, gotinhas de limão e basílico.


A simplicidade não tem preço, para outras coisas existem Mastercard!

Até!
24/04/2007 ..

O momento da imaginação...



Recebi um e-mail, lindo, que falava entre outras coisas, sobre o momento da imaginação. Já declarei aqui o quanto valorizo essa ferramenta chamada e-mail. Acredito profundamente nela, para o bem e para o mal! Acho que ela possibilita uma troca, às vezes tão profunda quanto à do olho no olho. Não porque possa, em minha opinião, ocupar o seu lugar. Isso nunca. Mas pelo quão difícil é, infelizmente, hoje em dia, se dar de presente, o tempo para o olho no olho.

Parece loucura do mundo moderno? Talvez sim. Mas o fato é que, a criação do e-mail pode, de certa maneira, representar uma quebra de paradigma. Pode ter ido muito além do que o próprio sonho do criador. Existem momentos em que essa relação transcende o esperado. Não apenas quando a criatura passa a ter vida própria, mas quando ela passa a existir com força própria.

No e-mail, reticências podem significar enigmas ou muito mais do que possa suspeitar a sua vã filosofia...Eu adoro reticências! Pontos podem significar cortes, ou não. Exclamações podem significar contentamento, ou muito pelo contrário! Através do e-mail sou capaz de sentir as sensações, as emoções, a respiração de quem está do outro lado. Outro lado da cidade, ou do mundo? Pouco importa, parece sempre tão próximo, tão familiar. É como se a criatura, nesse caso o e-mail, tivesse arrebentado as barreiras que a comunicação indireta normalmente impõe. Nesse caso, também, para o bem e para o mal!

E porque não acreditar, que talvez o seu criador, no seu momento da imaginação, tenha possivelmente acreditado que essa ferramenta se transformasse em algo mais do que uma ferramenta genial de acesso rápido? Talvez sim, talvez não. Mas o grande barato, é a possibilidade de acontecer.

Meu quiabo defumado transcendeu barreiras, quebrou paradigmas e já não precisa mais de mim. Nem sei se posso mais dizer: meu quiabo? Seria essa uma declaração terrível, ou deliciosa?


Deliciosa! Sem dúvida! Afinal ele existe, ocupa o seu lugar no mundo com elegância, sabedoria e confiança. Foi degustado por jornalistas do mundo inteiro, do New York Times a Food and Wine, de enviados mineiros a paulistas, cariocas e pernambucanos! Chamou atenção - marcou presença - sozinho, soberano e confiante.


Quem poderia prever o que aconteceria quando eu decidi colocar no menu da casinha laranja, a palavra: quiabo?


Eu ainda posso ficar em dúvida quanto à relação que vai se estabelecer entre ele e o degustador, apesar de já termos ultrapassado aquela fase em que a troca era solicitada. Hoje os clientes já chegam perguntando por ele, depois por mim! Ele já conhece a sua força, acredita que aquele lugar lhe pertence. Desce as escadas soberano rumo às mesas, sem se preocupar com o que vai encontrar. Repousa humildemente na frente do degustador e se entrega ao jogo da crítica sem medo de ser feliz. Ele transcendeu o esperado, passou a existir, e essa força é dele. Não me pertence mais. Eu sou o telespectador da minha criação, observo, vibro, sonho. E só. É o que me cabe, agora, e isso me basta.


Talvez o criador do e-mail tenha passado por situações de extrema emoção através da sua criação. Tenha mantido conversações amorosas, tenha trocado receitas de família, tenha travado brigas e reconciliações, tenha mudado o rumo de algumas conversas! Talvez não, tenha apenas observado como telespectador o que aconteceu, sem participar. Seja como for, o que importa, na verdade, é a emoção que se estabelece no momento da imaginação.

E essa emoção foi a que tomou conta do meu ser, hoje, quando finalmente vi, por inteiro e sem cortes: o novo site do restaurante, pronto para entrar no ar. Dessa vez não foram apenas barreiras ou expectativas que foram transcendidas, foram emoções. Os criadores com certeza sabiam o que estavam fazendo, e o fizeram com muita segurança, sensibilidade e genialidade. Como o quiabo, eles souberam, de maneira simples e sem subterfúgios, traduzir toda a minha emoção. A emoção de construir um sonho, o meu: a casinha laranja à beira do canal. O deles: o novo site do Roberta Sudbrack - www.robertasudbrack.com.br.


Amanhã no ar, ao vivo e para o mundo!

Reverência aos criadores!


Até!

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